terça-feira, 23 de junho de 2009

NÃO SE FAZ GUERRA COMO ANTIGAMENTE

Abel Aquino

As guerras modernas possuem uma característica que não vemos nas batalhas de outrora. Hoje, as guerras precisam possuir regras e uma delas é a de poupar civis. Mas, guerra com regra soa estranho, pois, os motivos que originam essas eventos, raramente são lógicos ou sensatos. Mas não diferem significativamente de briga de rua, ou seja, surgem de causas banais e, quando os contendores se atracam, quem usa de todos os recursos e não poupa energia, geralmente vence. Temos dois exemplos neste momento.
A Colômbia e o Sri Lanka são estados que conviveram com dissidências armadas por longo período e encararam essa questão da mesma forma: enfrentar as respectivas guerrilhas internas como apenas um problema a mais a ser considerado e não como prioridade acima de tudo.
No Sri Lanka, com a eleição de Mahinda Rajapaksa, as questões da guerrilha separatista tornaram-se prioridades e o combate a mesma foi eficiente, sem sujeição a certas regras civilizadas de guerra.
Os guerrilheiros - chamados Tigres Tamis – contaram, por muito tempo, com a cobertura da população civil, e isso vinha funcionando. Na tentativa de derrotar a guerrilha, os governos anteriores não se dispuseram a sacrificar vidas inocentes.
Mahinda Rajapaksa e seus irmãos resolveram enfrentar o problema ignorando os custos civis da empreitada. O resultado foi a enorme perde de vidas da população desarmada.
A ONU afirma que mais de sete mil inocentes foram mortos na campanha.
No dia 19 de maio de 2009, o presidente Mahinda Rajapaksa comemorou a derrota final da guerrilha Tamis e a pacificação do país, confirmando o controle de todo o território nacional.
Qual foi o preço dessa vitória?
O presidente Mahinda, praticamente, fechou o país à imprensa internacional, silenciou os críticos - até com morte de jornalista, dizem seus opositores - expulsou ONGs humanitárias que trabalhavam nas áreas controladas pela guerrilha e não poupou civis, usados como escudos por esses rebeldes.
Por outra lado, na Colômbia, os governos se sucederam sem dar prioridade a derrota da guerrilha. Mesmo Álvaro Uribe, o atual presidente, que, aliás - mais sucesso teve no combate às FARCS - tem hesitado em empreender uma campanha total contra os mesmos.
Vai daí que vemos uma sucessão de meias-vitórias sem fim, um enfraquecimento da guerrilhas, sempre temporário, até que elas se renovem, se rearticulem e voltem, novamente, a crescer.
Nesses constantes embates morrem sempre civis, e, ao longo de vários anos, acabam somando quantias enormes, sem que se saiba qual o fim disso.
Deveriam os governante da Colômbia ignorar as regras de guerra civilizada e partir para um combate final, incluindo a aceitação de imenso custo civil da empreitada?
É difícil decidir. Guerras, no momento atual, podem ser cobertas por uma mídia sensacionalista, ávida por audiência a qualquer custo, disposta a tomar partido do leitor/espectador e promover uma campanha mundial de condenação aos governos em guerras internas ou com vizinhos, não considerando as condições especificas dos problemas de cada país. Além disso, temos o conserto das nações, uma espécie de governo mundial que, encarnado pela ONU, pode, até certo ponto, interferir nos assuntos internos de qualquer nação.
Como decidir?
Um custo civil, por exemplo, de dez mil mortes de inocentes em alguns meses ou um custo civil de dez mil mortes em 20 anos de guerra constante, desgastante e infrutífera?
Podemos lembrar da guerra do Vietnan, quando a maior máquina militar do planeta foi derrotada por um exércitos de soldados descalços. Perderam porque impuseram, por pressão da mídia, do povo Americano e dos críticos, limites operacionais numa briga que não podia ter regras.
Foi a primeira guerra que podemos chamar de “midiática” e nunca mais as guerras foram as mesmas.
Foi boa essa “evolução”?
Não podemos esquecer que matanças de seres humanos, sejam por quaisquer motivos que forem, são condenáveis. Quem sabe a midiatização das guerras não represente um primeiro passo para acabarmos com elas!
Será isso otimismo?
Quando analisamos as razões das brigas, seja elas de botequim ou de grandes nações, o que vemos em comum é a falta de lógica, de sentido mesmo, e está na hora de o ser humano aprender a dialogar, em vez de trocar bombas.
Para continuarmos exemplificando, esse eterno conflito no oriente médio revela bem a falta de bom senso e até de racionalidade mínima dos seres humanos, principalmente quando escudados por noção de raça, estado, nação ou territorialidade. Qualquer analista externo a essa desavença, percebe que a solução é ambos, Israel e Palestinos, encontrarem um modus vivendi, repartirem as terras em disputas e, no final, tocarem suas vidas da melhor maneira que puderem. Mas, não, um quer a destruição do outro, e isso, nos dias de hoje é inadmissível.
Nos tempos bíblicos um povo qualquer derrotava outro povo, matava mulheres e crianças, salgavam o solo de suas antigas moradas e apagavam seus nomes da história. Hoje, em nosso mundo midiático, graças aos deuses, isso é impossível.
Já estamos mais civilizados, talvez.

sexta-feira, 5 de junho de 2009

UM MONGE EM MINHA LAVOURA - 1

Abel Aquino


Estive meditando: existe incompatibilidade entre pensamento e ação? Pensar atrapalha o agir? Ocorre-me a cena de algum monge budista sentado numa pedra ao frio e ao vento, imóvel, pensando na vida. Será que isso tem sentido?
Estava roçando o pasto, o sol queimava minhas costas e o suor descia pelo pescoço, típico serviço braçal como se diz pejorativamente. Embora agitado, eu continuava a pensar, imaginar coisas, fazendo conjecturas e planos. Parece que minha mente trabalha outro tipo de atividade, mas sem atrapalhar os braços nem as pernas. O vizinho passou pela estrada, agitou a mão sem desviar do seu caminho, e seguiu trocando largos passos e gingando o corpo. Seu chapéu estava destrançado numa parte da aba e manchado de barro.
Parei de roçar e olhei para o horizonte ao sul, procurando captar, em meu corpo, aquela imensidão de mundo ao meu redor e ao mesmo tempo sentido o cheiro do capim cortado.
A noite, depois do jantar, peguei o livro AURORA, de Nietzsche, para ler. Estava com muito preconceito na cabeça. Fui até a varanda com a lamparina na mão direita e o livro na esquerda. Sentei-me no banco e, ouvindo os curiangos , comecei a leitura. Sei que Nietzsche condena a filosofia por ter-se afastada do cotidiano da vida e isso me agrada.
Mas enquanto lia, como já disse Emerson em algum lugar, fui tendo meus próprios pensamentos e parei de ler para pegar um caderno e escrever o que estava fervendo em minha mente.
Sei que ninguém virá me perguntar porque estou lendo Nietzsche, pelo menos nesta região.
Algum vizinho pode aparecer por aqui, mas irá perguntar sobre gado, cavalos e, principalmente, se vai chover amanhã. Talvez nem notará que estou lendo um livro que não seja a bíblia. Mas o que me preocupa, na verdade, é em que posição estou jogando meu campeonato particular da vida. Estou no time dos dominadores ou no dos escravos? Quem sabe eu seja um escravo com pretensões de senhor ou, mesmo um senhor com crises de masoquismo. O ato de viver já é uma forma de superar alguma coisa, de afirmação e conquista. Minha curiosidade leva-me longe, através dos caminhos da filosofia como a daquele bêbado na festa de aniversário do Oswaldo. Tirando o hálito pouco suportável, disse uma grande verdade: “a gente não bebe para esquecer mas para espantar o medo”. E quem não é perseguido pelo medo?


Ontem estive ateando fogo no roçado à beira do brejo. Depois de espalhar os pontos de chama pela palha seca ao longo da roça, fui sentar à sombra de uma árvore, longe da fumaça espalhada pelo vento. O fogo cresceu e, em pouco,tempo, todos os pontos se uniram numa enorme labareda, varrendo a palha do capim cortado.

Depois do jantar, de noite, peguei meu caderno de anotações e escrevi apenas: “toquei fogo na roça hoje”!

Nietzsche tem razão, nalguma curva da história o ser humano fugiu da vida e passou a cultuar Idéias, alimentar Idéias, defender Idéias, matar por Idéias e a torturar seus semelhantes por terem a mania de cultivar Idéias diferentes. O grande problema das Idéias é que elas não tem forma nem conteúdo e quanto mais lhes faltam forma e conteúdo, mais elas dominam. Mas, eu que sou simples, acredito apenas na minha roça queimada e, ingenuamente, ficaria espantado se me dissessem que existem diferenças entre minha roça e a idéia que podemos fazer dela. O vizinho do sul cria porcos e o do norte engorda gado. Não são muito religiosos, mas possuem uma fantástica filosofia de vida, qual seja a de tudo o que depende deles enfrentam e resolvem, e tudo o que depende da sorte ou de causas acima de sua compreensão, deixam para Deus resolver. Com isso vivem maravilhosamente bem. Se o padre aparece pedindo uma novilha ou uma porca para a quermesse da semana santa, eles dão duas e sentem-se que já fizeram sua parte. Se falta chuva e sua horta morre de seca, culpam Deus por isso e seguem em frente.
Gostaria de ter essa simplicidade.
Mas voltando a questão da roça queimada, digo que é a experiência que faz uma imagem dessa ter o aspecto concreto em nossa mente. O fosso entre a imagem e a realidade só existe quando não vivemos essa última. Quando há uma integração entre o que vemos, sentimos, ouvimos e cheiramos não há conflito entre o fato e sua representação.
Por isso dou valor a liberdade e quero que o mundo me deixe viver do jeito que achar melhor. Vou ser egoísta quando achar que preciso ser egoísta. Posso ajudar meu vizinho a desatolar sua camionete sem ser cobrado ou levar ao hospital a mulher grávida do Joaquim sem achar que fiz uma boa ação, mas porque simplesmente quis fazer isso.
Meu objetivo é viver sem prestar conta a ninguém que não a mim mesmo. Gosto de estar só cercado de mato e animais, curtindo a chuva, o sol do campo, a visão das montanhas intocadas. Quando me canso do sossego vou à cidade e procuro as pessoas para tagarelar por horas. Gosto de ir até a fazenda do Álvaro e ver se ele precisa de ajuda na aragem da terra. Passo o dia por lá, trabalhando com ele, com seus empregados. Quando paramos para almoçar, debaixo do rancho de palha, proseamos como gente tagarela e qualquer assunto serve de tema e consegue esticar a conversa.
Mas tem dia que quero estar só, com meus pensamentos, com meu horizonte aberto e sujeito a raios e tempestades. Nessas horas procuro conhecer meu ritmo, as leis que vigoram em meu interior. É o momento de avaliar minhas escolhas e minhas crenças, sem deixar nada de fora do pensamento.
O problema de nossas religiões é que consideram o ser humano uma espécie de câncer que deixado a si mesmo desenvolve desordenadamente e se transforma em monstro. Pensando assim qualquer tentativa para domesticar o ser humano parece sensata, mesmo que custe o aniquilamento do ser. Todas as crueldade perpetuadas pela humanidade foram justificadas por racionalizações tais como: eram hereges, eram ímpios, eram bárbaros, eram inimigos do Estado, eram blasfemos ou simplesmente pecadores.
Quando pergunto a mim mesmo: sou uma pessoa má ou sou uma pessoa boa? Por exemplo, não tenho prazer nenhum em torturar um rato quanto mais torturar outra pessoa, por isso acredito que não sou de todo mau. Mas tem horas que odeio certos indivíduos e imagino cortar suas gargantas e vê-los morrendo a meus pés, então penso: será que sou uma pessoa cruel?
Nietzsche diz que somos humanos, demasiados humanos, mas isso não esclarece minhas dúvidas.
Quando era criança, percebi que meu primo gostava de pegar o nosso gato, amarrar um pano embebido em óleo no seu rabo, tocar fogo e se divertir com a correria do pobre animal. Aquilo me parecia um horror. Ele era um garoto mau? Não sei. Quando adulto mostrou-se bom marido, bom pai, bom amigo das pessoas.
Na verdade, não posso confiar nas palavras e duvidar de pessoas, pois as palavras são tão escorregadias quanto a personalidade de um ser humano.
As palavras são, parafraseando Nietzsche, uma espécie de bolso, onde ora se guarda uma coisa ora se guarda outra. As palavras são como bolsos, recipientes vazios prontos para serem preenchidos. Mas o mal não está nessa propriedade das palavras, mas está em ignorar essa propriedade e dar a qualquer palavra um sentido absoluto.
O que realmente procuro é viver minha vida de conformidade com meus instintos, sem medo de me tornar uma fera, mas convivendo com meus demônios interiores e indo além, compreendendo os demônios dos outros.
Gasset dizia: “viver é sentir-se fatalmente forçado a exercitar a liberdade, a decidir o que vamos ser neste mundo”, e é o que move minhas pernas nesta caminhada.



Naquela região, próximo à Santa Cruz, não existem muitos moradores. A maioria das casas são sedes de fazendas ou sítios e ficam nas baixadas, próximas da água. As crianças saem, de manhã, com seus livros e cadernos e, na medida que vão alcançando a estrada principal elas se encontram e caminham, dez ou quinze, juntas para a escola rural. A maioria dos pais acredita que a escola pode ensinar coisas que eles próprios não seriam capazes. Ignoram que a escola, tirando o prédio, é a professora e, o que as crianças vão aprender, depende da capacidade, do interesse, da dedicação e da paciência da professora. Esta pode ter boa noção de matemática, de geografia, de gramática, mas possuirá alguma noção de como se comunicar com uma criança? Como transmitir seus conhecimentos à criança sem que seja castigo? Na maioria dos casos a lição mais inesquecível de uma criança é a da reguada na cabeça, ou como antigamente, da palmatória. A criança não liga a palmatória ao estudo da matemática e, sim, à escola como um todo. Nas grandes cidades o castigo foi abolido, mas junto com a abolição do castigo foi o respeito à professora. Agora enfrentam um novo problema: como dar aula numa classe tumultuada, sem poder dar nem um puxão de orelha sequer. É impossível achar um pai que pensa nessa extremamente complexa arte de ensinar ou de passar conhecimento do professor para dentro da cabeça do aluno.
Mas a melhor lição de vida as crianças adquirem é no caminho para a escola, quando se juntam em bando, com brincadeiras, conversas, provocações, namoricos e com certa freqüência, boas brigas.
Elias já tem uns 13 para 14 anos e não se dá bem com o Douglas, filho do Sebatião, o vizinho ao sul de sua casa. Ambos gostam da mesma menina, a Dalva. Encontrei-o abrindo a porteira, retornando da escola. Parei minha bicicleta e puxei conversa com ele.
- Como está indo o estudo? Perguntei.
- ´Stá bem, respondeu. - ´Ocê vai chegar lá em casa? Perguntou em seguida.
- Não estou indo para o povoado.
- Teve na escola ontem, vai dar aula lá?
- Não, fui ver a professora que ficou de falar com vocês sobre a campanha de combate à doença de chagas. – A professora já explicou para vocês o que é doença de chagas? perguntei.
- Ainda não, mas sei que é aquela que ataca o coração, concluiu.
- É isso aí.
- A gente pega da mordida do persevejão, né?
- É isso mesmo, concordei.
- Mas, conta qual é a sua matéria preferida?
- Eu estudo todas... é preciso, né? Respondeu sem jeito.
- Quero saber qual matéria é mais fácil para você, ou é mais agradável?
- Bem, gosto de história.
- Você lê alguma coisa além do que a professora manda?
- Não. – Não tenho outros livros.
- E se eu emprestar um, você lê?
- Leio, sim. Respondeu. – o que fala no livro? Perguntou curioso.
- Bem, tenho vários livros de história. – verei qual pode ser mais fácil para você.
- ´Tá bom. – Eu vou chegando, falou passando pela porteira.
Despedi-me dele e fiquei olhando-o afastar pela estrada, com sua bolsa de pano cruzada no ombro. É difícil estudar ou, melhor, ter curiosidade por coisas dos livros quando a criança vive num mundo ausente de livros. Os pais analfabetos ou daqueles que dizem que lêem para o “gasto”, não tem a mínima idéia da importância de se conhecer o universo dos livros.
Praticamente em todas as casas que visitei nesta região, o único livro que eventualmente aparece é a bíblia, mas sempre com o papel de enfeitar a estante ou a mesa da sala do que propriamente um livro para a família ler e meditar.
Outra coisa que chama atenção por aqui é a falta de horta no quintal ou mesmo de roça bem organizada. Os terreiros das casas são sujos, povoados por galinhas, porcos soltos, cachorros e gatos. O máximo que a gente vê é um pequeno canteiro de cebolinha e temperos básicos.
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terça-feira, 12 de maio de 2009

OUTRO TIPO DE SELVA

Abel Aquino

A região rural do entorno de Santa Cruz de Goiás era bastante montanhosa e os vales pareciam o interior de uma imensa fortaleza. A estrada que eu percorria margeava um estreito rio e, de vez em quando, via enormes construções cercadas por currais de madeira e com bicas d´água jorrando no quintal. Muitas dessas grandes casas estavam vazias, sem moradores. Mas a terra não estava abandonada, pois, da estrada, eu conseguia ver lavouras bem formadas e pastagens verdes dos dois lados.
Pelo que fiquei sabendo, pouca gente queria permanecer no campo. A maioria mudara para a capital, para a grande cidade.
No entanto, Seu Martim teimou em ficar e com ele toda a família. Encontrei-o sentado no degrau da escada da porta da frente de sua modesta casa. Enquanto conversava, suas mãos calejadas dobravam as abas do chapéu encardido, evitando trocar olhares comigo. Falava calmamente e sem grande preocupação.
- Até meu irmão foi embora, dizia. - Sei, continuou, que lá ninguém respeita ninguém; é tudo desconhecido... nem filho obedece pai. - Eu sei disso... concluiu, levantando os olhos rapidamente.
- Querem facilidades lá, argumentei.
- É - tudo é fácil por um lado e difícil pelo outro. Pra estudar é mais fácil e pra aprender coisa que não presta também é, ponderou.
- Você não deixa de ter razão, conclui.

O filho mais velho de Seu Martim devia ter mais de 18 anos e evitava conversar comigo. Era extremamente tímido. Imaginei que a cidade grande não seria realmente um bom lugar para ele viver; difícil se adaptar, adquirir os vícios da cidade.

Mais tarde, já pedalando pela estrada, fiquei pensando comigo:
A vida no campo pode ser monótona e pouca coisa acontece que não seja repetida, dia após dias. Mas a gente tem um bom controle sobre o próprio espaço. Na cidade precisa, a todo instante, manter relacionamentos com desconhecidos, tem que arriscar nas travessias de ruas, na possibilidade de ser assaltado, enganado. e, na maioria das vezes, sem condição de avaliar ameaças e perigos.
A grande cidade é que é uma selva, onde os perigos não são fáceis de avaliar, onde as feras são nossos próprios semelhantes.
Outra coisa que me impressionou, naquela região, foram as tais bicas d´água. Os moradores não faziam poço porque o terreno era muito rochoso. A solução foi construir suas casas próximas dos rios, dos riachos ou de nascentes. Do leito do rio abriam vala, desviando a água do curso e canalizando-a na direção da casa. A vala terminava em uma calha de madeira que elevava a água por um metro e a deixava cair na extremidade, formando a tal bica d´água. Ali podiam colher toda a água necessária, usando gamela, balde ou bacia. As roupas eram lavadas em gamelas ao lado da bica e batidas em prancha de madeira. A noite, a gente dormia ouvindo o barulho daquela água, misturado com o pio da coruja, dos curiango e o coaxar dos sapos.

Era princípio de ano e ainda havia mangas nos pomares abandonados. Parei minha bicicleta, abri a porteira e passei os olhos pela parte externa da casa; havia um enorme quintal e não tinha sinal de gente. Só via folhas forrando o chão e poeira amontoada nas guarnições das janelas fechadas.
As mangas amarelas dependuravam dos galhos da mangueira, entre as folhas. Subi pelo grosso tronco, procurei o galho mais carregado de fruta e fui na direção da extremidade. O ramo começou a vergar sob meu peso. Deitei o corpo, estendi os braços e consegui alcançar uma meia duzia de gordas mangas. Apanhei uma por uma e as joguei ao chão, procurando lançá-las sobre a parte mais coberta de folhas secas para que não se machucassem.
Passei a tarde chupando mangas, sentado ao pé da paineira e observando os esquilos correndo pelos galhos do abacateiro do fundo da casa.

quinta-feira, 7 de maio de 2009

ANOTAÇÕES DE LEITURA - 101

A RELIGIÃO E O SURGIMENTO DO CAPITALISMO

Título Original: Religion and the Rise of Capitalism

Autor: R. H. TAWNEY

Editora: Perspectiva - 1971

(Período da Leitura: 20/09/2008 à 31/12/2008)

INTRODUÇÃO

“O objetivo deste livro é investigar algumas linhas no desenvolvimento do pensamento religioso sobre as questões sociais e econômicas no período que presenciou a transição das teorias medievais de organização social para as modernas. Ele não conduz o assunto além do começo do século XVIII e não tem a pretensão de tratar da história quer da teoria econômica quer da prática econômica, exceto na medida em que a teoria e a prática estiverem relacionadas com mudanças na opinião religiosa. “

RESUMO

Tawney traça uma linha do tempo relativa a mudança no modo de pensar dos povos europeus desde os meados da idade média até o século XVIII, descrevendo a evolução da mentalidade religiosa de condenação a todo tipo de comércio e principalmente da usura, indo, lentamentente, cedendo às transformações que levaram a prática de negócios, a cobrança de juro de ato condenável, a tolerância e, finalmente, a elevação de tais atividades como uma espécie de dom de Deus.
Para Tawney a contribuição de Lutero foi pequena pois este rompeu com a igreja mas manteve postura extremamente conservadora quanto a atividade comercial e a usura. Calvino, segundo Tawney foi mais tolerante e até mesmo defendia a atividade de negócios, embora mantivesse um pesado constrole moral e religioso da sociedade:
“Era um credo que buscava não meramente purificar o indivíduo, mas reconstruir a Igreja e o Estado, e renovar a sociedade permeando todos os setores da vida, tanto públicos como privados, com a influência da religião”.
Mas Tawney resalta ainda uma diferença fundamental nas duas correntes protestantes: enquanto a corrente Luterana defendia uma mundo rural e estático, O Calvinismo formou-se entre as camadas urbanas, entre os homens do comércio, entre os trabalhadores de cidades populosas.
O mundo de Lutero “é mais uma economia natural, do que monetária, consistindo nas barganhas miúdas de camponeses e artesãos no estreito mercado do burgo, onde a indústria é realizada para a subsistência da familia”.
“Ao contrario de Lutero, que mirava a vida econômica com olhos de camponês e de místico, eles (os calvinistas) abordaram-na como homens de negócios, nem dispostos a idealizar as virtudes patriarcais de comunidade camponesa, nem a olhar com suspeita o mero fato da iniciativa capitalista no comércio e nas finanças”.
Mas, para Tawney, não foi o calvinismo o fator determinante para a revolução definitiva na maneira de se encarar a atividade comercial, financeira e industrial. A mudança mais profunda surgiu, não no continente mas no coração da sociedade inglesa, mais precisamente no seio do movimento religioso conhecido por “puritano”.
“O crescimento, triunfo e transformação do espírito puritano foi o mais fundamental movimento do século XVII. O puritanismo, não a secessão Tudor de Roma, foi a verdadeira Reforma Inglesa, e é de seu embate contra a velha ordem que emerge uma Inglaterra moderna.”
Para Tawney o espirto independente e o culto individual da religião, caracteristicas do puritanismo foram a porta de entrada do mundo econômico na vida da sociedade. A religião puritana era um manual de vida não só espiritual mas abrangendo todos os aspectos da existencia humana. O contato com Deus era uma ação individual e independente de outros indivíduos, de autoridades, de Papas ou Reis. A vida do puritano era uma relação pessoal com Deus e todos os dons oferecidos ao ser humano deveriam ser empregados para a Sua gloria e o trabalho, a diligência, a humildade, a frugalidade e a honestidade são as virtudes abençoadas por Ele.
A prosperidade advinda do trabalho diligente revela a benção de Deus. Era como se, de repente, ficar rico fosse a prova máxima de que a pessoa estava fazendo a vontade de Deus.
Era uma forma totalmente oposta da religião predominante na idade média que condenava as preocupações mundanas e principalmente o enriquecimento. Para o cristianismo primitivo o ser humano não devia se apegar aos preocupações terrenas a busca de riqueza num mundo provisório e pecaminoso. A missão de todo cristão é de preparar sua vida para a outra vida. O puritanismo revolucionou isso com a introdução da ideia de “vocação”. A vida terrena é, na verdade, a oportunidade que o ser humano tem de agradar a Deus pelas obras e não só com palavras. O cotidiano de cada um passou a ser fundamental para a salvação da alma. Estava aí a aprovação moral que o capitalismo precisava para prosperar e impor-se ao mundo.

quinta-feira, 23 de abril de 2009

ALGUÉM AINDA SE LEMBRA DAS "DIRETAS JÁ"?

Abel Aquino

Nosso povo e nossos políticos não aprendem com as lições do passado. Primeiro, porque não olham para trás. Segundo, porque têm pressa em construir o futuro e acham que já sabem tudo o de que precisam. Não temos heróis, não temos boas histórias para contar às próximas gerações e com isso vamos repetindo os erros do passado e empurrando,
eternamente, o futuro para o futuro.
Veja o diálogo que anotei naquela época. Corria o longínquo ano de 1984:
O Mauricio me ligou e eu fiquei muito contente. Nem esperei dizer o motivo de sua ligação e já fui convidando-o para ir ao Anhangabaú participar do último comício da campanha das diretas.
Cara! Foi bom você ligar. Ia convidar você para ir com a gente ao megacomício das diretas, falei entusiamado.
Não estou a fim de ir, respondeu.
Que é isso!? A gente não pode perdeu um momento desse; isso é histórico, cara! - Vamos expulsar os milicos de Brasília.
Eu não tenho essa certeza, argumentou Maurício.
Como cara! Você é tão estudado, é de viver sempre sabendo de tudo o que se passa na política. – Achei que você é que estaria mais eufórico com essa campanha.
Por isso mesmo, explicou. – É por estar bem informado que não acredito nessa tal campanha.
Não entendo você.... gaguejei, frustrado.
Bem, eu explico minha visão disso, respondeu. – Primeiro, a oposição está vendendo as eleições diretas como panacéia para todos os males do país. -Parece até que, ao acordar na manhã seguinte após eleger diretamente seu presidente, o povo vai encontrar um novo paraíso pra se viver. – Você acredita nisso?
Bem! Penso que é uma coisa mais simbólica do que real, na verdade, justifiquei.
Ai é que está a questão. – Para tudo, em nossa história, o que é simbólico quer dizer “faz de conta”.
Você está sendo cruel, cara!
Estou tentando ser realista. – com eleições diretas ou não, nós temos que trabalhar, estudar, lutar por nossas vidas e não será nenhum político que vai mudar essa realidade, meu caro, concluiu.
Mas os militares governam contra o povo, são uma ditadura, arrematei.
Concordo. Mas, quem garante que basta o povo poder votar pra presidente que os melhores serão eleitos para nos governar? Acredido até que o povo tende a votar nos piores, porque, num regime democrático de eleições diretas, manipular o povo passa a ser um questão de escrúpulo: quem for mais cara de pau vai ter mais chance de empolgar o povão e se eleger para o cargo que quizer.
Não é bem assim, não, reclamei.
Não vou dizer que o povo não sabe votar, mas também não vou dizer que uma eleição é a oportunidade do povo eleger os melhores para cargos públicos; seria muito ingenuidade da minha parte acreditar nisso.
Nisso o que? Perguntei confuso.
Ora, acreditar que o povo vai ter informação correta sobre a vida e intenção do candidato. Com a eleição direta vão aparecer os publicitários para criar uma embalagem dourada para o candidato e vendê-lo ao povo como um produto qualquer. Todo candidato vai parecer mais puro que anjo de Cristo.
Então você é contra a democracia?
Não, mas estou mais preocupado com a liberdade do que com os formalismo de sistemas políticos, sejam eles de direita ou de esquerda, militar ou civil.
Do que você está falando?
Veja os gloriosos lideres dessa campanha: Tancredo Neves, Franco Montoro, Mário Covas, Leonel Brizola, José Richa, Ulisses Guimarães; todos eles buscam o poder, querem afastar os militares e estabelecer a democracia “deles”, não do povo. Já estão até fazendo marketing, usando o famoso locutor de futebol, Osmar Santos para abrilhantar os comícios. O povo vai lá para aplaudir e fazer o bom papel de claque. No outro dia vão dizer aos milicos: viu só! O povo está do nosso lado, caiam fora! Nós queremos o seu lugar.
Mas, o que podemos fazer então? Perguntei, todo confuso.
Amigo, quem muda alguma coisa num país não são os políticos, são o povo. O objetivo de qualquer político, num regime de eleições diretas, por exemplo, é se eleger e pra se elegere vai se apresentar ao povo da maneira que o povo gosta, ou seja sem mostrar o que ele é, qual é seu caráter, sua capacidade. E quanto mais atrasado for o povo mais deseja soluções simplistas, planos imediatistas, promessas mirabolantes e não qual é a verdadeira necessidade do país. Assim tudo depende da qualidade do povo. O povo sabe o que é melhor para o país? O político corre atrás. O povo não sabe o que é melhor para o país e quer soluções mágicas? o político vai fingir que dá o que o seu eleitor quer.
Então, pelo seu ponto de vista, não adianta lutar pela democracia, pelo fim da era militar?
Claro que vale, mas sem empolgação. Será um avança pequenininho, mas necessário.
Quer dizer que você não está ligando para essa campanha?
Digamos que acredito que os militares irão embora de qualquer maneira. Mostraram-se tão incompetentes que já não vêem a hora de passar essa abacaxi para os civis. Mas, voltando ao tema das Diretas Já, digo que a oposição não tem a mínima idéia de como consertar nosso pais, quer apenas o poder, acredita, talvez ingenuamente, que com o poder nas mãos tudo será possível, inclusive construir o paraíso. E nisso eu não acredito: é mais fácil construir o inferno na terra do que saber governar uma nação respeitando a liberdade de cada um. Sinceramente tenho medo de políticos muito idealistas, daqueles que prometem encurtar o caminho para o céu. São políticos totalitários como a história nos conta claramente.
Caramba! Você estragou minha alegria!
Sinto muito! Não era essa minha intenção, concluiu.

terça-feira, 31 de março de 2009

PENSANDO COM O MARTELO

Abel Aquino

A sociedade é replicadora de si mesma. As novas gerações se formam por acomodação e as virtudes e defeitos são repassados de pais para filhos da mesma forma com que transmitem os gens e as caracteristicas físicas. A cultura de um povo é nada mais que ritos, costumes, crenças e comportamentos programados e reprogramados ao longo das sucessivas gerações. Isso dá estabilidade, dá segurança e auxilia na manutenção da ordem social e da cooperação entre os membros da sociedade.
Mas quando há uma mudança brusca nos aspectos externos dessa sociedade – um avanço tecnológico, por exemplo – a sociedade se desestrutura. Daí nascem os conflitos, as crises existenciais, as neuroses individuais e os desajustamentos nas relações entre membros. A sociedade como um todo entra em crise.
Uma atitude individual iconoclasta, destruidora de ídolos, no sentido Nietzscheniano, possibilita quebrar essa rigidez dos costumes e crenças e facilita a adaptação às mudanças, típicas de nosso mundo moderno.
O iconoclasta questiona o papel das crenças, dos valores morais, dos rituais coletivos e das formas repressoras de enquadramento do indivíduo. É a busca de libertação mental e corporal pelo pensamento questionador.
No início, talvez, fique contra os causadores das mudanças. Depois, continuando a exercitar sua liberdade de pensamento, começa a ver que o problema está, na realidade, na rigidez da textura social, na luta pela permanência de crenças e valores num mundo em rápida transformação. Nesse momento o iconoclasta coloca-se contra os costumes, contra a tradição. Nesse ponto fica mais perto de romper as amarras que o prendem à tradição e consegue, então, torna-se rebelde. A rebeldia é um estagio fundamental para o individuo poder abstrair-se do meio social onde cresceu e pelo qual foi moldado e adquirir a capacidade de analisar as várias formas de rupturas que precisa fazer. O rebelde quebra a coesão da sociedade, torna-se anti e começa a escapar da força centrípeta que o impede de libertar-se.
O próximo passo é encontrar todas essas forças da sociedade incrustadas no mais profundo do seu ser, tornadas, na verdade, partes constitutivas de si mesmo. Agora precisa arrancar essas crenças, essas formas de padronização de pensamentos, essas correntes que o prendem ao pai, à mãe, à familia maior, ao professor, ao padre, ao pastor, ao mestre ou aos políticos.
Muitas pessoas ficam no primeiro estágio e passam a vida combatendo a modernidade, o progresso cientifico e tecnológico.
Muitos outros ficam no estágio de rebeldia, de desobediência civil permanente e tornam-se antissociais e misantropos.
Mas os que não temem o pensamento livre vão em frente; estudam a sociedade, analisam seus fetiches, mergulham-se em leituras de antigos filósofos, religiões exóticas, culturas diferentes. Chega a um ponto em que o rebelde começa a romper as amarras da tradição e do conformismo e caminha para novas indagações, renova sua curiosidade, encontra outros desafios a serem enfrentados. Nessa caminhada uma vida é pouco.
Mas na medida em que vai conhecendo e ampliando sua consciência, vai reconciliando-se, aos poucos, com a sociedade, já numa outra dimensão, liberto, acima dos conflitos que endoidecem os comuns dos mortais. Agora esse antigo rebelde compreende e sorri.
No dia em que conseguir sorrir das loucuras do mundo, sem se sentir cúmplice, atingirá mais um novo degrau rumo a sabedoria de viver.
Toma consciência de que a revolução da sociedade começa com a revolução dentro de si mesmo, que o individuo evolui enquanto interage com os outros, trabalha, conversas, debate e critica os seus semelhantes dentro do universo de suas relações. Sua postura rebelde vai ser acompanhada, de certa maneira, pela sociedade. Esta vai tentar enquadra-lo, tentará dobrar a sua espinha, quebrar as suas pernas. Nada será fácil, compreende-se; sua personalidade representará uma nota dissonante no seio da unanimidade social.
Mas o objetivo do rebelde é quebrar os ídolos, romper as barragens da tradição, desmantelar as hierarquias desniveladoras, talvez , num primeiro momento, numa batalha dentro de sua alma, no interior da mente condicionada, e, num segundo instante, irradianto-se à sociedade, enfrentando-a como quem desafia uma besta selvagem. Todo conhecimento adquirido será de absoluta importância nesse momento; suas leituras de antigos pensadores, de livros sagrados e nem tão sagrados, de testemunhos da vida, das conversas com Sócrates, com Buda, com Nietzsche, com Thoreau, com grandes filósofos e com insignificantes vagabundos do pensamento, todos serão decisivos nessa hora. O rebelde estará à par dos avanços das ciências, da psicologia, da sociologia, da antropologia e até da química, da física, da eletrônica e com o que mais lhe cair nas mãos. Tudo será processado em seu fenomenal cérebro. O caminho será longo, talvez, sem fim, mas também sem volta.
A liberdade é uma busca que vai crescendo, ampliando os horizontes, abrindo porteiras, subindo e descendo montanhas, cujo desfecho serão os anos de vida de cada um.

terça-feira, 10 de março de 2009

DE CONVICÇÕES E QUESTIONAMENTOS

DE CONVIÇÕES E QUESTIONAMENTOS

Abel Aquino

Quando você vai construir uma casa, com raras exceções as paredes são levantadas no prumo e no nível; por que?
Porque ao alinhar o centro de gravidade da parede verticalmente, esta corre o menor perigo de desabar. Se você construir a parede inclinada, afastando o centro de gravidade, ela tende a pesar para um lado e fatalmente cairá se não for construida de forma a suportar esse desequilíbrio.
Mesmo que o pedreiro não entenda nada sobre a lei da gravidade, ela sabe que uma parede no prumo é mais estável.
Agora quando falamos da construção de nossas idéias, uma convicção pode ser formada sem obedecer às leis da física. Essa convicção pode não considerar a lei da gravidade e nada acontece, mas quando você vai agir em função dessa convicção, formada sabe lá como, os resultados podem ser terríveis. S e no caso for a convicção de que a lei de gravidade não existe e o sujeito pula de um barranco a consequência será trágica.
Esse exemplo serve apenas para ilustrar como são perigosas as convicções baseadas em crenças, como a fé por exemplo, ou em tradição e costumes.
A convicção se estabelece em nossa mente através de uma falta de dúvida, ou seja pelo princípio da fé, o que quer dizer do acreditar, sem questionamento. E isso também quer dizer que você está recebendo conhecimento de segunda mão, está subordinando sua inteligência a outra pessoa, mesmo quando essa pessoa seja o padre que diz que você deve ter fé na bíblia, não nele. Essa é uma forma de mascarar o relacionamento de subordinação que você está aceitando.
Mas se nossas convicções baseadas em crenças são perigosas e enganadoras como faço para ter convicções sem correr o risco de estar errado. Existe a lei do mal-humor por exemplo, como a lei da gravidade, evidente por si mesma?
Claro que não existe.
A ciência do humano está ainda engatinhando, embora já tenhamos mais de dois mil anos de registros de tentativas das mais variadas formas.
Então como vou proceder?
Existe uma regrinha que é a seguinte: fazer exatamente o que os religiosos proíbem. Duvidar e questionar tudo. Quando tenho que agir e preciso de me orientar para fazer escolhas, consulto meu banco de experiências, meus livros de filosofia preferidos e ajo da forma que acho mais adequada.
Depois fico observando as consequências e se percebo que não era aquilo que esperava, guardo isso como lição para enriquecer meu banco de experiências e ter mais dados para tomada de outras decisões similares no futuro.
O interessante é que as pessoas de um modo geral fazem exatamente isso, só que de forma inconscientes, desde que elas não estejam atadas por religiões ou ideologias. Quanto maior o grau de liberdade que a pessoa tem ao pensar, duvidar e questionar, maior é a possibilidade de aprender com a experiência. A vantagem de fazer isso de forma consciente é que a gente tem mais chance de improvisar, de antecipar, ou seja de simular a ação e com isso ajudar na hora de tomar decisões práticas
Por exemplo: se um jovem solteiro decide casar com a mulher que acredita amar, pode fazer uma avaliação das vantagens e desvantagens do casamento, do que deve abrir mão e de como será preciso agir para conviver com uma mulher, antes estranha. Os questionamentos e avaliações serão infinitos, incluindo o momento presente da crise da forma tradicional de casamento, da perda da liberdade que o solteiro tem, etc. Ou seja, ele poderá fazer milhares e milhares de perguntas, ter milhares de respostas e alternativas, muitos prós e muitos contras. E, se no final decidir casar, terá uma imensa consciência do que vai enfrentar.
Vai dar certo? Ela também avaliou suas condições como ele fez?
O importante é que na hora do casamento ele terá uma hiper-consciência do que está fazendo, dos riscos que vai enfrentar, com, talvez, mais medo do que o normal, mas com certeza, mais preparado para enfrentar a vida de casado.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

O ESTADO PODE SER NOSSO PROVEDOR?

Abel Aquino


Nós, brasileiros, temos uma longa história de culto ao Estado, ao governo, seja ele qual for e em qualquer época. Antes de Pedro Àlvares Cabral, nosso território era habitado por muitos povos sem Estado. Cabral ofereceu estas terras ao reino português como se aqui não existisse gente ou ignorando a gente que havia aqui, ou, ainda pior, considerando que a gente que havia aqui não era gente. De uma hora para outra essas imensas matas e montanhas passaram a ter dono: o rei de Portugual. Primeiro se criou um pais ou, na época, um território real e depois correram para botar gente nele. O Estado formou-se primeiro e só um bom tempo depois é que se formou a sociedade. Portanto temos um vício de origem:
Aprendemos a aceitar o Estado como nosso guia, nosso protetor, nosso salvador, nosso pai todo poderoso. Sem o governo para mandar em nossas vidas, nos suicidamos todos.

Mas o pior veio depois. Aprendemos que através do Estado, ou da política, ou do governo, dá no mesmo, podemos viver uns as custas dos outros sem que esses outros se revoltem. Para isso foi criado o fetiche do Estado provedor que não é nada mais nada menos que o Estado predador, ou seja predador de muitos e provedor de poucos.
Como já dizia Bastiat, lá pelos idos de 1848, há quase duzentos anos, que ganhar a vida do próprio suor é duro e nada prazeroso e que portanto o ser humano vive permanentemente procurando meios de viver as custas de alguém.

Dizia Bastiat “o homem é avesso à Dor e ao Sofrimento. E, no entanto, ele está condenado pela natureza ao Sofrimento da Privação caso não trabalhe para viver. Ele tem, portanto, apenas uma escolha entre dois males.Como evitá-los ambos? A única maneira procurada até hoje e que jamais será encontrada é esta: viver às custas dos frutos do trabalho dos outros; esta é a maneira por meio da qual as Dores e Satisfações, em vez de serem atribuídas a cada um de acordo com as proporções naturais, são divididas entre os explorados e os exploradores, com todas as dores indo para os primeiros e todas as satisfações indo para os últimos. Este é o princípio no qual se baseia a escravidão, e as espoliações de todas as formas: guerras, imposturas, violências, restrições, fraudes, etc”

Todas as tragédias do mundo podem ser resumidas na “tendência infeliz e primitiva que todos os homens têm a dividir em duas partes o todo complexo de suas vidas, deslocando as Dores para outros e mantendo as Satisfações para si mesmos”.

Acontece que ninguém, hoje em dia, admite viver às custas de outros, porque isso pode causar revoltas e conflitos desnecessários. Há formas mais sutis de explorar alguém ou uma parte da sociedade sem, com isso, perturbar a “harmonia” entre os parasitas e seus vítimas.

Para Bastiat “o opressor não mais age diretamente pela força sobre os oprimidos. Não, nossa consciência se tornou delicada demais para isso. Ainda existem, contudo, o opressor e sua vítima, mas entre eles está um intermediário, o Estado, isto é, a própria lei. O que poderia ser melhor para silenciar nossos escrúpulos e, talvez ainda mais importante, superar toda resistência? Assim, todos nós, com quais exigências, sob um ou outro pretexto, vamos ao Estado. Dizemos a ele: "Eu não considero que há uma proporção satisfatória entre meus lazeres e meu trabalho. Eu gostaria muito de tomar um pouco da propriedade dos outros para estabelecer o equilíbrio desejado. Mas isso é perigoso. Você não poderia facilitar meu desejo? Não poderia me arranjar um bom trabalho no serviço público, restringir a indústria de meus competidores ou, melhor ainda, me prover um empréstimo a juro zero com o capital que você tirou de seus legítimos proprietários, educar minhas crianças às custas do público, me conceder subsídios ou garantir meu bem-estar quando eu completar cinqüenta anos? Assim eu poderei alcançar meu objetivo com minha consciência tranqüila, pois a própria lei terá agido em meu favor, e eu terei todas as vantagens dos saques sem ter que me submeter a quaisquer riscos ou ressentimentos."

Bastiat conclui que “o Estado é a grande ficção pela qual todos tentam viver às custas de todos os outros”.

Na verdade essa absurda ficção se apresenta ao cidadão comum como um fetiche: o da dependência eterna - o governo é ruím mas sem Ele seria pior. Além do mais quem me impede de um dia deixar de ser pagador de impostos e tornar-me usofruidor de verbas públicas? A ilusão da nossa semi-democracia é essa de que qualquer um de nós podemos, de repente, nos beneficiar das tetas públicas.
Só que Bastiat alerta: “o fato é que o Estado não tem e não pode ter somente uma mão. Ele tem duas mãos, uma para tirar e outra para dar. A rigor, o Estado pode tomar e não retornar. Nós já vimos isso ocorrer, e se explica pela natureza porosa e absorvente de suas mãos, que sempre retêm uma parte, às vezes o todo, do que tocam. Mas o que nunca se viu, nunca se verá e não se pode nem mesmo conceber é o Estado dar ao público mais do que dele tirou. É, portanto, tolice que assumamos a humilde atitude de mendigos quando pedimos algo a ele. É fundamentalmente impossível para ele conferir uma vantagem particular a alguns indivíduos que constituem a comunidade sem infligir um dano maior à toda a comunidade”.

Alguns dirão, ingenuamente, ou, de forma demagogica, que a função do Estado é de distribuir renda, tirando dos que tem muito e dando aos que não tem nada. Será isso verdade?
Admitamos que, como é impossível dar alguma coisa a alguém sem tirar de outrem, seria tolerável tirar parte dos que tem em prol da nobre causa de resgatar o pobre da sua pobreza.

Mas Bastiat já alertava, em 1848, que o Estado “ é composto de ministros, burocratas, de homens que, em suma, como todos os homens, carregam em seus corações o desejo de que suas riquezas e influências aumentem, e sempre aproveitam as oportunidades que têm para fazer com que isso ocorra. O Estado, então, compreende rapidamente o uso que pode fazer do papel que o público atribui a ele. Ele será o árbitro, o mestre de todos os destinos. Ele tomará muito e, portanto, ficará com uma grande parte para si. Ele multiplicará o número de seus agentes; ele aumentará o escopo de suas prerrogativas; ele adquirirá proporções esmagadoras.

Portanto, meu amigo, se você acredita que o governo é o pai dos pobres, o Robin Hood da sociedade, pode tirar o cavalo da chuva: os governos, todos eles, de qualquer partido, vai tirar 10 de quem gera riqueza, dar 1 para os pobres e embolsar 9. Depois não tem verba para saúde, verba para melhorar a educação, verba para reformar as estradas há décadas todas esburacadas, verbas para equipar a polícia ou contratar mais policiais, e por aí à fora. No entanto nossos governantes arrecadam a bagatela de 1 trilhão de reais todos os anos!
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São Paulo - 16/02/2009

sábado, 7 de fevereiro de 2009

NÃO QUER DIZER QUE É BOM SÓ PORQUE A MAIORIA DO POVO APROVA

Encontrei o pessoal na lanchonete discutindo política e o assunto do dia era sobre o Lula, com três entusiastas defensores de seu governo e dois opositores. Quando notaram a minha presença me chamaram para a roda. Os dois que criticavam o governo Lula estavam, não só em desvantagem numérica, como também sem argumentos para defender seus pontos de vista. Como sabiam que sou um crítico evidente do governo do ex-metalúrgico, minha presença foi saudada como a grande chance de equilibrarem a disputa. Um deles olhou para mim e perguntou: você sabe explicar porque o Lula tem tanta aprovação?
- Não tenho idéia, respondi, evitando entrar bruscamente no debate. Talvez porque ele fala bem, usa linguajar do povo e é sempre otimista.
- Você quer dizer que conquista o povo pela conversa.
- De certa forma sim. Nosso povo frequenta pouco a escola, recebe informação de forma oral, via ouvir dizer, ouvir rádio ou assistindo televisão. Temos 15% de analfabetos, 70% de semialfabetizados - os chamados analfabetos funcionais – e, dos 15% que são realmente alfabetizados, quantos desenvolveram espírito crítico?
- Nosso país é o paraíso da demagogia, da conversa fiada como se diz popularmente, conclui.
- Então o Lula é bom de papo? perguntou meu amigo.
- É isso aí.
- Mas nenhum governo anterior cuidou tanto dos pobres, argumentou um dos defensores do governo Lula.
- Bem, respondi – isso não posso negar. Por outro lado só cuidar dos pobre não é suficiente para se fazer um bom governo. Um bom governo precisa ser bom para todos as pessoas ou pelo menos para a grande maioria delas, o que não é o caso. Não houve mudança no serviço de prestação de serviço a população tais como saúde, educação e segurança. Na saúde, por exemplo, as coisas pioraram desde o governo FHC. Lula até tem sucesso em duas áreas, exatamente porque não inovou, não tentou mudar, que são na economia, com a manutenção da chamada política econômica, e na modernização da agricultura, com a transformação do Brasil em um dos maiores exportadores de alimentos do mundo. Outra coisa, o governo Lula veio numa época de prosperidade mundial, com fortes ventos a favor do comércio de commoditys, como minérios, soja, milho, petróleo.
- Mas os outros governos ignoraram os pobres e governaram para os ricos.
- Isso é o que você está dizendo. E achar que o Lula não governa para os ricos é uma santa ingenuidade. Ninguém governa sem agradar aos mais ricos. Lula precisa dos ricos e os trata com o maior carinho. Para ter uma idéia, os ricos continuam a ser os que menos pagam, proporcionalmente, impostos. Os banqueiros nunca lucraram tanto como hoje em dia. Para cada real dado aos pobres dois reais, no mínimo, é dado aos mais ricos do país. E você não precisa acreditar em mim, basta ler jornais com atenção e olhar o orçamento do governo, a forma como gasta o dinheiro arrecadado com impostos. Os pobre pagam muito mais impostos do que os ricos. Calcula-se que mais de 20% do salário mínimo pago aos aposentados e aos mais necessitados, volta para o governo na forma de impostos indiretos.
- Você acha que isso é cuidar dos pobres?
Todos ficaram em silencio me olhando. Depois um deles finalizou: - cada um tem seu ponto de vista. - Eu olho os pontos positivos do governo Dele, você vê os pontos negativos; - O povo aprova o Lula porque sabe que ele é o melhor governo que já tivemos, concluiu.
- Concordo, em parte, com você; quando a gente quer defender alguém ou alguma coisa a questão fica resumida em como arranjar argumento favorável. Mas respeito sua posição. Não podermos ignorar que Hitler tinha o apoio da grande maioria do povo alemão e no entanto era um governo maluco, assassino e não terminou bem

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

SOBRE SUPLICY E OS INOCENTES ÚTEIS

Outro dia, conversando com um amigo, descobri que ele era fã do Eduardo Suplicy. Meu amigo fez rasgados elogios ao eterno senador. Discordei na hora, e argumentei que poderia dar mais de uma dezena de razões para não admirá-lo como político. Aliás, como pessoa comum, eu o elegeria um dos homens mais puros da terra.
Alinhavei as razões das minhas ressalvas:
Vamos lá:
Suplicy é tão ingênuo que acha que sabe de tudo o que acontece no congresso.
Não sabe.
Quando querem tramar alguma barbaridade, os políticos sempre procuram esconder do Suplicy o que estão aprontando.
Quando querem dar um ar nobre a uma idéia estapafúrdia qualquer - dessas que nascem ao borbotões em Brasília - os políticos dizem: peguem o apoio do Suplicy e vocês ganham a mídia e a opinião pública.
Suplicy acha que todo pobre é um anjo disfarçado e a pobreza é a reserva moral da humanidade.
Uma crença dessa só é possível para quem nunca foi pobre como é o seu caso.
Ele não conhece trabalho duro e por isso tem imensa dó de quem trabalha.
No entanto nunca demonstrou dó de quem é obrigado a dar quase a metade do salário ao governo na forma de impostos de todo tipo.
Aliás Suplicy adora dar esmola aos pobre; quase chora quando fala da sua monomaníaca “renda mínima”. Acredito que nem sabe o que é renda. Renda é o que rende do trabalho de alguém. Dar dinheiro para pobre - mesmo que pela nobre razão de matar-lhe a fome - não é distribuir renda, é dar esmola ou dar presente. É dar esmola com o bolso alheio, ainda por cima.
Outra coisa, o senador é uma espécie de bobo da corte em Brasília. Gostam de ouvi-lo quando precisam acalmar as consciências pesadas e dão bordoadas nele quando se empolga e começa a exagerar em suas cantilenas.
Essa pureza ingênua acaba criando um ar menos fétido à classe política e isso não é bom para o povo. Sem querer, Suplicy transformou-se numa espécie de reserva moral dessa classe e isso é um absurdo.
Por fim, embora seja honesto e sincero como pouca criatura nesta terra, Suplicy não é um radical, nunca quis ser um São Francisco que abriu mão de todo conforto, de todo luxo e foi viver com os mendigos e experienciar a vida dos que não possuem absolutamente nada. Pelo contrario, cultiva com carinho a boa e confortável vida que herdou dos pais.
Uma coisa positiva nele é que jamais segue rigorosamente a cartilha do PT. Nunca foi confiável à cúpula do mesmo. Embora seja um ícone luminoso da história da esquerda brasileira, não participa do núcleo de poder do partido; seus dirigentes preferem ostentá-lo como figura imaculada e exemplar da atividade parlamentar, uma figura decorativa apenas.
Suplicy tem consciência, segue suas convicções acima de tudo e de todos, uma coisa raríssima nesse mundo de personagens gelatinosas e fugidias. Todo mundo sabe o que pensa o senador, todo mundo sabe que será bem tratado por ele. Respeita tanto parceiros de militância quanto adversários ideológicos.
Não sei se convenci meu amigo, mas percebi que ele ficou quieto e pensativo por algum tempo e depois mudou de conversa. Nunca mais tocou no assunto.

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

AINDA SOBRE A QUESTÃO DE COTAS

A pergunta adequada que precisamos fazer é: porque poucos negros ou pardos chegam a universidade?
È por discriminação, alguma forma de restrição a vestibulando de cor?
O negro tem mais dificuldade de inscrever-se no vestibular?
É por frequentar escola pública?
É por que o negro é pouco inteligente?
É porque o negro é indolente e acomodado?

1º dificuldade: oficialmente não há nenhuma discriminação. Se há alguma restrição é velada e sutil e não deveria influenciar no resultado final.
2º dificuldade: Não é dificuldade direta. O que há é dificuldade de ordem econômica que faz com que o negro desista de fazer faculdade antes mesmo de tentar. Portanto a dificuldade não está diretamente ligada a sua cor mas sim a sua condição financeira e de sua familia.
3º dificuldade: Escola pública é notoriamente deficiente no ensino e no preparo do estudante para alcançar a universidade. Mas é dificuldade é igual a todo e qualquer aluno, seja ele negro, branco, oriental ou indígena.
4º Dificuldade: Não há prova científica de que negros e pardos possuam inteligência inferior a qualquer outro ser humano, seja branco, asiático ou indígena.
5º dificuldade: A crença na indolência do negro basea-se em puro preconceito e não tem base cientifica ou mesmo prática de que isso procede.

Então porque tão poucos negros e pardos fazem a universidade?

A explicação é sociológica. Os negros em sua grande maioria forma a classe mais básica da sociedade, portanto históricamente sem acesso a estudo, saúde e estímulos sociais de status de fámilia que os incetive a ter estudo e a subir na vida. Mas uma significativa parcela dessa camada é de pele branca e enfrenta as mesmas dificuldades dos negros.
Uma criança pobre de favela ou de perifeira, seja negra ou branca, geralmente é filha de pais, avós e bisavós analfabetos ou semialfabetizados. Uma criança que nasce em regiões rurais isoladas ou nas favelas e periferias das grandes cidades, normalmente está cercada de parentes e vizinhos também sem quase nenhuma escolaridade, desconhecem livros, desconhecem o mundo da cultura.
A criança que sai de um meio desse, terá que percorrer um caminho extremamente mais longo para chegar àquele ponto de sentar numa carteira e concorrer com outros jovens, vindo dos bairros de classe média, ao vestibular de alguma universidade. E não terá que enfrentar só dificuldades financeiras, mas terá também de vencer a apatia do meio em que vive, terá que superar a ausência de estímulo da sociedade que a cerca, o descaso dos poderes públicos em proporcionar escolas de qualidade, estimulantes, criativas e capazes de suprir as deficiencias advindas de sua condição de vida de pobre.
O que desejamos evidenciar é que independente da cor da pele, toda e qualquer criança pobre terá todas as razões do mundo para desistir de estudar no meio do caminho entre o 1º ano e a universidade.
Portanto qual é a razão para instituir cota para negros e pardos se a dificuldade para chegar a universidade para uma criança branca pobre é a mesma?
Não seria mais justo instituir cotas para todos os pobres então?
Será que querem pagar uma pseudodivida para com ancestrais dos negros escravizados em outras eras e por outras gerações? Para isso é preciso ignorar o branco pobre? Para isso é preciso discriminar as pessoas pela cor, desta vez invertendo os papéis?

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

AUTOMÓVEIS E BARBÁRIE

VAMOS FAZER UMA ARITMÉTICA:

AUTOMÓVEIS = ACIDENTES = REPRESSÃO

SERÁ ISSO CORRETO?


Tenho ouvindo tanta insensatez nos últimos dias que preciso escrever alguma coisa.
E a primeira é que nossos políticos consideram que somos um bando de malucos, irresponsáveis no transito e todos nós, sem exceção, cachaceiros. Estatisticamente falando, transformam uma questão absolutamente normal, , em motivo para mostrar serviço e fazer o povo esquecer que metem as mãos nas burras públicas. O pior é transformar os acidentes de estradas e ruas num caso de polícia e a mídia, em peso e sem exceção, vai no embalo e dramatiza ou melhor, dá uma dimensão de tragédia nacional a estatísticas manipuladas e parciais dessa realidade muito mais complexa que a vã arrogância totalitária de nossos governante é capaz de abarcar.

Então vejamos:
Uma sociedade que tenha 0,1 % de malucos pode ser considerada uma sociedade sadia, não é verdade?
Isso apesar do naufrágio catastrófico da educação familiar nos dias de hoje, da educação pública capenga que temos, mesmo assim parece razoável 0,1% de irresponsáveis no trânsito. Mas de qualquer forma, se considerarmos 0,1% de malucos em nossas sociedade, concluímos que, se 2 milhões de paulistanos viajam num fim de semana prolongado, teremos portanto 2 mil malucos pegando a estrada nesses dias.
Anotei noutro dia, ainda no verão, que num fim de semana típico desses, houve 4 acidentes graves nas estradas paulistas, sendo que tivemos 6 mortes como resultado disso. Ocorreram outros vinte acidentes graves, mas sem vítimas fatais.
Qual é a conclusão a que chegamos?
Mesmo não considerando os outros 1 milhão novecentos e noventa e oito mil cidadãos que viajaram naquele fim de semana prolongado e, analisando apenas os 2 mil considerados por nós “malucos”, chegamos a conclusão de que, apesar de malucos, comportaram-se exemplarmente e apenas 24 motoristas confirmaram a sua maluquice. Ou seja apenas 1,2%.
Conclusão, apesar de tantas coisas erradas em nossa sociedade, começando pelo governo que não conserva estradas, não sinaliza direito, não fiscaliza corretamente, não educa ninguém. Apesar de nossas escolas não ensinarem civilidade no trânsito, de as auto escola treinarem cada um de nós a tirar carta e não a dirigir corretamente, apenas 1,2 % de 0,1% das pessoas que tomam as estradas cometem barbaridades.
Mas, porque toda essa gritaria, então?
Aí é que entra o fator político. Nosso sistema político se baseia na repressão e nas soluções burocráticas, não importa qual problema esteja enfrentando. Dar dimensão policial a um problema é o meio encontrado por nossos políticos acuados por denúncias de todo tipo, ou seja a segurança do trânsito só pode ser garantida pela repressão e de repressão os políticos entendem. Afinal o Estado tem o monopólio da força: constitucionalmente,falando, só o Estado está autorizado a usar da repressão como forma de “educar o cidadão”. Dessa forma o político mata dois coelho com uma cajadada só: mostra quem manda e passa para a sociedade a mensagem de que está fazendo alguma coisa para o “bem do povo”.
O problema principal é que temos tendência para as generalizações, para penalizar todos como forma de garantir que o verdadeiro culpado não se safe. Se alguém toma um copo de cerveja, pega um carro e sai pelas ruas não o torna criminoso de forma alguma. É um absurdo jurídico dizer que um copo de cerveja pode tornar um cidadão qualquer num assassino. Por mais absurdo que seja é o que essa lei considera. Você é penalizado por um crime que não cometeu mas de acordo com critérios sabe lá quais, poderia cometer. O pior é que quando alguém comete um crime ao volante de um carro, atropela alguém, estando embriagado a lei é leniente, a punição é duvidosa. O primeiro fator que inibe um cidadão de cometer um crime é a educação correta desde o berço e o segundo fator é a punição para os que cometem um crime qualquer. No entanto, com essa lei, esses dois fatores ficaram de fora. Estão sendo extremamente severos com os possíveis causadores de acidentes por ter tomado uma taça de vinho, mesmo sem ter cometido nenhum tipo de crime e esquecem da educação e da punição a quem já cometeu crime.
Por essa ótica a barbárie do trânsito é interpretada como falta de leis coercitivas que enquadrem todos os motoristas sob regras rígidas a serem seguidas e principalmente obedecidas. Ora essa forma de encarar a questão é falha na medida em que se esquece de que, ao criar regras coercitivas, é preciso também criar meios e recursos para aplicar essas regras, do contrário essas leis serão mais algumas das tantas leis mortas que existem por aí, fantasmas que rondam nossas vidas.
No entanto, a questão da barbárie no trânsito, é uma questão de educação, principalmente. Só que não funciona começar a educar uma pessoa aos 18 anos se desde de criança não teve uma apropriada educação doméstica. A educação só regula o comportamento se for transmitida desde o berço.
Por outro lado, com afirmei acima, numa sociedade estatizada, a opção pela coerção é irresistível.
Enquanto fazem a sua festa particular com o nosso dinheiro, os políticos, nessa democracia eleitoreira que temos, precisam dar alguma satisfação a sociedade. Criar leis restritivas e gerar clima policial nas relações sociais dá a impressão de que temos governo, de que temos autoridade.
Ora, uma sociedade não precisa de autoridade, de governo policial substituindo a educação, de coerção estatal dispensando a formação de hábitos de conduta social saudáveis. A nossa sociedade precisa exatamente do oposto: precisa sim de educação que substitua a necessidade aparente de repressão, de castigo e de penalização.
A realidade é que nossos políticos adoram ser cobrados; isso lhes dá oportunidade de cortarem mais um pedacinho de nossa liberdade em nome do chamado “bem comum” e ainda saírem de alma lavada. A forma como os políticos usam e abusam do dinheiro público dá-lhes dor de consciência, talvez uma espécie de tênue remorso. Portanto sentem aliviados quando surge a oportunidade de exercerem a filantropia sem enfiar a mão no próprio bolso ou quando podem patrocinar uma nova lei de coerção.

sábado, 22 de novembro de 2008

ARRECADAR IMPOSTOS PARA DAR DINHEIRO AOS POBRES!

Se eu e a sociedade como um todo aceitarmos que o Estado tire dinheiro do povo, através de impostos, com o intuito de ajudar ou socorrer os pobres precisamos acreditar que os Estado é imparcial, justo, vai usar o dinheiro de forma a maximizar os beneficios ao pobres, etc. Mas sabemos todos que não é isso o que acontece. Primeiro que o Estado não um organismo imparcial: ele é composto de gente exatamente iguias a nós com tendência a ser até pior que a média da população. Segundo é que os governantes vão usar esses recursos para tornarem-se popular perante os pobres, para garantir voto de gratidão dos pobres, para consolidar o poder do partido, das figuras mais destacadas do partido ou do grupo do poder.
Além disso boa parte do dinheiro arrecadado vai para os intermédiários, para os políticos que buscam socesso na carreira.
Em resumo, arrecadar imposto para praticar distributivismo é uma tática de poder e não um serviço de filantropia, com o agravante de dar esmola com o bolso alheio e levar todos os loros do gesto. E se o distributivismo é uma tática de poder logo manter o pobre numa “confortável” pobreza é, da mesma forma, uma maneira de praticar e consolidar “poder”.

Portanto, essa prática não acaba com a pobreza, porque não ataca as causas, as circustâncias que criam e perpetuam a pobreza. Ser pobre é muito mais do que não ter dinheiro, não ter renda. Ser pobre é pertencer a uma classe de pessoas com uma série de caracteristicas comuns a todas, tais como falta de estudo, isolamento social. Os pobres são filhos, netos e bisnetos de pobres, analfabetos, sem laços de fámilia com gente de classes acima da sua. São frutos de uma sociedade sem relações horizontais de cultura, religião e política. Nas sociedes com predominância de relações verticais, as familia que não conseguem inserir-se à trama de troca de favores e prática de poder ficam à margem e não encontram meios de ascenção social, porque nesse tipo de sociedade o esforço individual não tem importância nenhuma: o que faz a diferença são as relações de poder, ou seja o estabelecimento de contantos verticais entre grupos, classes ou organizações políticas.

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

O ESTADO PREDADOR

Abel Aquino


Outro dia presenciei uma incursão, uma “razzia” dos soldados da prefeitura a algumas barracas de café e bolo na periferia de São Paulo, com uma eficiência que jamais vemos da polícia quando procura bandidos. Já presenciei dessas incursões no centro, na ladeira Porto Geral.
Lembro de uma cena na televisão, uma visão comovente de um camelô, fugindo com seu carrinho de pneu, pulando numa perna só, enquanto o toco da outra perna, atrofiada, balançava no ar. Atrás dele vinha um punhando de guardas da prefeitura, descendo o porrete a torto e a direito.

Mas, voltando a falar da “razzia” na periferia, o que me surpreendeu foi o fato de que não há mais local onde os tentáculos do poder não alcança. Esses chamados informais são vítima de um Estado elefante, gigante, comedor de dinheiro como poucos paises do mundo.
E nessa sanha de arrecadar mais e mais impostos instituem um estado policial, criminalizam todo meio de vida que não enquadra nos padrões de controle oficial. Os que não tiveram meios de superar a burocracia para abrir legalmente um negócio ou mesmo optaram por negócio clandestino, sem pagar impostos e taxas, até como forma única de viabilizar sua fonte de renda, são constantemente perseguidos.

O argumento básico é que os informais estão concorrendo de forma desleal com o comércio formal, aquele que recolhe impostos. Qualquer cidadão sensato percebe que a questão não é essa.
O problema é que, em face da altíssima carga tributária, processa-se, artificialmente, uma seleção natural na atividade econômica,ou seja uma grande parcela de nossa sociedade é condenada a impossibilidade de empreender atividade econômica apenas porque o Estado, em suas três instâncias, quer abocanhar boa parte da renda que é gerada por quem trabalha.

E o pior de tudo é que, praticamente, não há contrapartida. Se o dinheiro que vai voltasse em forma de serviço à sociedade, não estaríamos no pior dos mundos. Mas, não é isso o que acontece. Na periferia, onde o povo mais precisa, os serviços públicos não chegam ou chegam de forma precária e insuficiente.
Ao longo de nossa história o povo absorveu dos políticos a idéia de que o Estado existe para ajudar, para proteger uns dos outros, para inpedir injustiças, para educar, para cuidar da saúde de cada um de nós, para cuidar de tudo, enfim. Não queremos responsabilidade por coisa alguma, preferimos cobrar dos políticos. Mas acabamos esquecendo de um detalhe: quanto custa para a sociedade transferir ao Estado todo tipo de responsabilidade e obrigações, livrando-nos, individualmente, de peso de ter de cuidar de nós mesmos? Além disso, uma outra pergunta nunca foi respondida: será que o Estado pode realmente arcar com todo as responsabilidades e obrigações de uma sociedade moderna e conplexa? Será ele capaz disso? Mais uma pergunta ainda sem resposta: os políticos assumem eles próprios essas obrigações Estatais? O que vemos é o total descasamento entre as obrigações “oficiais” do Estado e a forma como os políticos manipulam as instituições aparentemente constituidas para assumir tais responsabilidades e obrigações, ironicamente rabiscadas, com zelo, na maioria das nossas inúmeras Constituições.

Mas, voltando ao assunto, ouvi um camelô questionando o fiscal da prefeitura:
- `Tô tentando viver do meu trabalho e ´ocêis vem e me tomam tudo! – querem que eu vá roubar, é?
-
Triste opção! E dizem que é função do Estado, defender os mais pobres!

Afirmam, os especialistas, que o tamanho do comércio informal é diretamente proporcional à dificuldade de se legalizar um negócio ou ao peso dos impostos. Portanto, quanto mais imposto, mais gente na informalidade, quanto mais difícil legalizar um negócio, mais gente vai optar por tocar seu empreendimento de forma subterrânea.

Isso parece óbvio, obvio até demais para qualquer um de nós, mas não para os políticos.
Na realidade nossos governantes escolheram o caminho que os leva inevitavelmente a sugar cada vez mais a sociedade. A forma como o Estado Brasileiro funciona ou mesmo a razão da sua existência é de parasitar a sociedade.
Nosso modelo de Estado é um modelo essencialmente predador, mas para ser predador sem despertar a ira de suas vítimas o Estado precisa mistificar sua missão. Por isso nossos políticos estão sempre prometendo cuidar de tudo para o povo.
Em toda eleição é a mesma ladainha: vamos melhorar a saúde, vamos acabar com as filas nos atendimentos, vamos por mais polícia na rua, vamos tapar os buracos das estradas. Mas quando chegam ao poder o espírito predador toma conta do político e seus apaniguados. Aí promovem a orgia da gastança pessoal e não sobra dinheiro para a saúde, para a segurança, para conservação de estradas. Nessa hora pensam em aumentar um pouquinho mais os impostos e assim por diante. É característica do predador a fome infinita.

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

DE ABORTO E DE BOM SENSO

Abel Aquino

Duas pessoas estão discutindo a questão do aborto, mais especificamente quem é a favor e quem é contra a regulamentação ou descriminalização do aborto. Um é contra qualquer tipo de aborto e o outro parece defender a regulamentação. Salta à vista a ignorância quanto a questão anterior de que estão, tanto um quanto o outro, considerando como dada a presença do Estado numa decisão pessoal, ou quando muito de costume ou religião. Para os conservadores e mesmo os conservadores que se dizem liberais, a bandeira da descriminalização do aborto é empunhada pela esquerda, pelos comunistas, pelos socialistas e quejandos. Mas, na realidade, quem defende a proibição total ou mesmo parcial do aborto, está pressupondo a existência de uma lei estatal para tanto, logo defendendo a participação do Estado na regulamentação do comportamento dos indivíduos, uma característica dos Estados totalitários. Alguns dos chamados liberais conservadores declaram-se liberais na economia, pelo regime de mercado, e conservadores nos costumes. Ora legislar sobre costumes é característica de regimes nada liberais, uma questão que precisam resolver.
Posso, portanto, dizer: não sou nem a favor nem contra a descriminalização do aborto, muito pelo contrário, não vou nem discutir isso pois cairia no nonsense puro.
Coloco a questão nos seguintes termos: vamos discutir em que momento da gravidez o aborto poderá ser considerado assassinato, obedecendo ao princípio da não violência, de não agressão ao outro. Em que momento da gestação o feto deverá ser considerado o outro?
Esse é o verdadeiro debate que poderemos travar sem cair para o absurdo, para o reino da incoerência. E não vamos chamar o Estado para ditar regras ou leis sobre isso. É um debate horizontalizado, de pessoas para pessoas, de comunidades para comunidades, de religião para religião. A decisão final poder não ser homogênea para toda a sociedade nacional, mas é a maneira de respeitar as decisões individuais e, o que é mais importante, as circunstâncias individuais. A lei Estatal se restringiria em determinar em que momento surge o crime e ponto final.
Poderíamos ter uma situação em que uma mulher católica - obedecendo a orientação do Papa - não admite aborto, mesmo que esteja com uma gravidez não desejada ou de risco. Outro, sem orientação religiosa específica, concordaria com a lei que diz que é crime abortar à partir do terceiro ou quarto mês de gravidez.

Para o liberal verdadeiro, a questão a ser posta é: aborto é uma decisão pessoal portanto particular que envolve a pessoa, sua família e suas crenças e religião. A partir de uma dado momento a gravidez será alcançada pela lei e o aborto deverá ser criminalizado como eliminação de uma vida humana, portanto assassinato.
O que complica é que os teólogos católicos, por exemplo, dizem que, à partir da união do óvulo com o espermatozóide, a célula já é uma vida. Outros pensarão diferente: que é vida à partir do momento em que o coração começa a bater, ou em que se formam os nervos e o feto pode sentir dor. O debate vai longe e, se for mantê-lo no campo das religiões e dos preconceitos, não se chega a lugar nenhum. O grande complicador é que todos defendem, no fundo, a presença do Estado nesse debate e aí o arbítrio aparece. Porque, com o Estado interferindo no debate, o lobby católico ou o lobby laico, qualquer um pode sair vitorioso na conquista do Estado para seu ponte de vista e os outros sairão perdendo. Poderemos convocar os cientistas e médicos para nos definir o momento de transição de um amontoado de células, do feto ser vivo. Mas muitos vão dizer que suas crenças, suas religiões estão acima da ciência e o problema não será resolvido.
Mas o que diz a ciência?
A vida como a conhecemos hoje é o resultado de uma complexa organização celular. Se eu retirar uma célula de meu corpo não estou tirando minha vida, posso tirar um milhão de célula de meu corpo e mesmo assim não eliminar minha vida. Vida é bilhões de células inter-relacionadas, especializadas e interdependentes umas das outras. Um óvulo e um espermatozóide são a semente da vida mas não é a vida. Tanto é que os homens e as mulheres lançam fora a maior parte de seus óvulos e espermatozóides que produzem ao longo da vida reprodutiva e ninguém briga por isso. Cientificamente, quando uma óvulo é penetrado por um espermatozóide cria-se uma reação em cadeia que leva a construção de uma nova vida. E isso leva um tempo. Quanto tempo? A ciência pode dizer com exatidão, tendo como princípio a momento em que o feto começa a reagir a estímulo, tem coração, cérebro e nervos sensíveis. A partir daí pode ser considerado um ser humano.

Quando analisamos o que é a morte, compreendemos melhor essa questão. A morte é confirmada pelo médico quando cessa toda atividade biológica, quando não há sinal de atividade cerebral principalmente, ou seja, quando todo o conjunto de bilhões de células deixam de se interagir. Nosso corpo continua com todos os componentes intactos, mas não há vida porque não há atividade metabólica. Continuamos com o coração, o cérebro, as pernas e tudo o mais, porém já não temos vida; somos apenas um monte de água, carbono, cálcio e minerais. Uma reunião de células não é suficiente para se considerar vida. Um fígado não é vida sem o resto do corpo. A vida começa quando as células se dividem, se diferenciam, iniciam atividade especificas e reagem ao meio ambiente.